O conceito de Brahma da mitologia hindu e de um mundo ausente de ilusões, de sombras e de vultos que ofuscam a visão leva-nos à necessidade de Maia com seus milhares de véus criando o encantamento da realidade. O real surge como um véu, uma máscara, um discurso um molde com o qual experimentamos cobrir Brahma e produzimos a sensação da estabilidade das coisas. Maia nos envolve e cria a ilusão das cadeias atômicas, da estabilidade das relações químicas e da integridade do discurso econômico. Seus véus entortam o espaço para reduzir as distâncias, permitem que seguremos um copo e que ele assim permaneça, mas também faz com que vejamos milhares de pessoas morrendo de fome todos os dias em uma proporção maior do que a que deu origem às primeira e segunda grandes guerras territoriais da Europa, a que chamaram de mundial. Maia nos cobre com um discurso de conformismo, introspecção e isolamento ante a hegemonia de um eu “privado” crucificado todos os dias ante as intenções que não se concretizam.
O capitalismo e o conjunto de famílias que há mais de um milênio governam o mundo civilizado europeu põem sobre nós esse véu flexível (o absolutismo pode levar à guilhotina) e para cada clinamem um novo véu conforma Brahma aos seus interesses. Mas os corpos não se comportam enquanto perdem a compostura. Ao criar um véu que dê conta dos movimentos que os corpos fazem rumo à fuga para a uma percepção ainda não encoberta, Maia mecaniza o real em uma colcha de retalhos que nunca se rompe.
O mundo de corpos sensíveis que proclamam um novo real a cada instante
Uma teoria que dissesse dos desafios da comunicação ante o mundo deveria retomar o que falava o filósofo e prêmio Nobel de literatura Henri Bergson ao afirmar que o erro do ocidente teve origem na adoção da escola socrática.
- Não se trata de dizer se a realidade é material ou discursiva. O que importa é o movimento presente entre essas relações e a forma como o véu é posto ante nossos olhos.
A estática ilusória de que as coisas são elas mesmas e a fantasia de que os discursos se movem com elas criam a determinação do real. Ocorre que no início do século XXI da cultura civilizatória cristã européia encontrou um moto-contínuo pelo qual se apresenta como molde em que o bem-estar deu lugar à inserção no mercado. De um modo geral, com o fracasso do modelo comunista e com o coquetel que os estruturalistas fizeram, oriundos de um pensamento positivista, a cultura ocidental se estabeleceu frente à idéia de um modo evolutivo em que o capitalismo, como uma espécie dentre as espécies descritas por Darwin, evoluiria para o comunismo, tal qual Marx descreve no seu “O Capital”, afinal pela lógica dialética kantiana, todas as coisas trazem dentro de si o gérmen de sua destruição, e uma síntese, uma terceira coisa, um estado evoluído.
A civilização européia que se apresenta como modelo único não trouxe em-si o gérmen de sua destruição, mas a destruição de milhares de milhões de pessoas, culturas, espécies e ambientes no entorno de sua homogeneização. Enquanto os livros de história falam de um holocausto judeu, sérvio, bósnio, albanês... põem de lado o que representou o período de expansão colonial e o verdadeiro holocausto planetário que foi a expansão de seus valores até a homogeneização planetária da propriedade tal qual estabelecem seus cartórios.
Um olhar frio sobre o a Europa do século XV revela um continente devastado.
A colonização é fruto da necessidade de matéria-prima (madeira) para dar curso ao sistema produtivo que estabeleciam à época. Com recursos insuficientes para suas ambições comerciais, a Europa se lançou ao mar com sua máquina civilizatória. Estabeleceram-se sobre vários pontos do planeta e deram início ao processo de destruição global. A princípio impuseram-se pela força, mas ela não se revelou eficiente. Ocorre que o número de colonizadores não era tanto e a necessidade de recursos de um continente já devastado era grande e para que auferissem os recursos a fim de sustentar o continente uma outra estratégia foi traçada: a da elite bastarda da colônia.
Nos primeiros anos de colonização as índias enterravam as crianças bastardas ao nascer. Os nativos sabiam do perigo que eles representavam. Então os europeus mandaram para as colônias a igreja e com ela a mansificação dos povos. Enquanto a igreja prometia um retorno do Éden, absolvia as más ações em função das boas intenções, criaram uma classe de nativos que permitiram a vida os bastardos, e com os bastardos construíram uma elite local que sonha na rearianização genealógica e no retorno triunfal ao paraíso, idealizado como a metrópole.
A elite bastarda correspondeu aos interesses do colonizador, pois enquanto sonhava em si tornar europeu, renegou a cultura materna e voltou-se ao pai colonizador em busca do perdão escravizando e devastando o seu entorno, produzindo recursos para a matriz e almejando a sua aprovação enquanto membro de uma raça pura ou igual de uma cultura que prometia o paraíso do ócio como resultado da exaustão pelo trabalho. Em nome de sua cultura civilizatória, de seu deus único de culpa e redenção os bastardos sacrificaram quase a totalidade da população nativa americana, valeram-se da diversidade dos povos e culturas africanos e impuseram um regime de extração que resultou em discurso econômico que afirma nos dias de atuais de que exportar é o que importa. Mesmo quando o seu vizinho morre de fome, o moderno bastardo não enxerga a crise do modelo europeu. Ele constrói muros, sobrepõem-nos com grades de espetos e cercas elétricas, particularizam a segurança e vêem o mundo por circuitos fechados de TV e por canais midiáticos que reforçam a hegemonia da estabilidade que esse discurso nos traz à do grupo bastardos do qual seu proprietário faz parte e defende.
O discurso capitalista vale-se no início do século XXI da pluralidade dos discursos e dá esquizofrenia de sua hegemonia. Impondo-se frente às massas e exigindo de seus opositores formulações tais quais apenas uma construção estrutural-dialética de oposições e sínteses definidas tratam de sua observação de forma monádica e deixam obscurecer os regimes que não se sustentam, e agregam para si o poder de autenticação da marca, cobradores do valor do pedágio que pela propriedade de uma tese original, consideram-se únicos para atestar a antítese e a nova síntese.
O bastardo não vê que o pensamento dialético é uma fábula. Que a evolução e o progresso prometido pelo positivismo, uma ilusão. Que a expansão do mercado mascara a destruição do planeta. Que o acúmulo de grandes fortunas é fonte da expropriação e do acúmulo do trabalho, em detrimento do bem-estar e a sobrevivência de milhões que morrem diariamente.
A crise que se abateu sobre a intelectualidade e que permite a homogeneização desse discurso desconexo reside na persistência desse espírito kantiano dialético. No lugar da superação, o pensador espera a oposição e a nova síntese. Não é bem assim. A lógica paraconsistente não nos permite formular antíteses porque nega essa negação. Uma coisa não tem oposições e uma não coisa deve ser vista como outra coisa. As proposições não necessitam de uma estrutura para alcançarem o sentido. Um exemplo claro, é o estabelecimento de relações entre o modelo produtivo-cultural e de consumo e de seus aspectos sociais e ambientais. A civilização européia global aderiu ao discurso ecológico das alternativas remediadoras de seu impacto destrutivo.
Reciclável, auto-sustentável, politicamente correto, socialmente responsável. A civilização européia criou esses véus sob os quais esconde o impacto de sua hegemonia.
-É preciso reafirmar que essa máscara não uma novidade, é mesma que ilude o bastardo.
Os europeus diziam trazer a civilização, por fim dos ritos pagãos, aos sacrifícios e, para isso, impuseram um modelo que resultaria no bem estar do coletivo e no paraíso do ócio como recompensa final, mas para isso seria preciso a adesão de todos e a entrega obstinada ao trabalho e à devastação do planeta, tal qual praticaram em seu continente. Enquanto exterminavam os nativos americanos em sua busca desenfreada por recursos, os europeus construíam para si a infra-estrutura que lhes ascendeu à condição de paraíso para os bastardos almejam a rearianização e o expurgo do pecado original pela negação da vizinhança e dos genes da mãe. A Europa civilizatória expropriou a produção milhares de milhões de pessoas durante cinco séculos enquanto construiu seu modelo de bem-estar. Mas eles estão perdoados, pois tem em sua defesa a redenção que traz fé cristã. Por ela, no fim do dia confessamos a incapacidade de seguir os valores que essa fé nos impõe e por isso esperamos ansiosos pela instauração global do status que os europeus alcançaram.
- O bastardo não vê que é a cultura que ele tem por modelo que põem em risco a vida no planeta, que cria a instabilidade do ambiente, que levará à extinção os ursos polares dentro de 50 anos.
- O bastardo aceita comodamente a inevitabilidade de milhares de mortes diariamente e quem sabe, o aumento dessas mortes diárias para centenas de milhares para a manutenção da hegemonia do modelo de produção capitalista.
Obsolescência programada, amortização de investimentos, embalagens descartáveis, sabores homogeneizados aos poucos todos estamos sujeitos ao mercado. Um mercado maleável, atento aos clinamens, porque enquanto apresenta-se por um modelo estrutural, o capitalismo age da maneira esquiza, produz através de monadas e evita qualquer leitura conjuntural, como a de enxergar a impossibilidade do paraíso prometido tendo em vista o constante aumento da população carcerária, dos famintos e dos doentes e da quase eliminação da securidade social conquistada por milhares de mortes nos séculos XIX e XX. Essa mascará do módulo esquizo é visível, na impossibilidade das pessoas de associarem a isso o constante aumento das fortunas pessoais e corporativas e a redução do bem-estar global.
O pensamento moderno parece que trava aqui. Na impossibilidade de superar o fracasso da fórmula marxista.
- O marxismo é uma interpretação futurista das proposições de Ricardo sobre a geração do capital. Marx propõe uma sociedade em que o trabalhador aufira o resultado total do valor do trabalho. Marx mantém valor e trabalho como premissas e os projeta a um estado ideal.
O comunismo travou por manter os personagens na mesma representação.
Não se engane pensando que as incontáveis mortes em combate para difusão de princípios de direito a um bem-estar comum não foram vãs. O que não teve valor foi a morte programada que os sistemas influenciados pelo marxismo impuseram aos seus governados. Garantiu-nos direitos e uma melhor distribuição do bem-estar, mas nós abrimos mão delas em busca da promessa do retorno ao Éden, rearianização global. Trabalho para todos e o estado de consumidor como ideal.
Os estados modernos foram forçados pela de globalização a trocar os conceitos de cidadãos, pelos de consumidores potenciais. A integração pelo consumo e a obediência ao mercado e ao humor das grandes fortunas, essa é a ordem do dia, todos devemos submissão. Evitamos dizer que a mídia cria essa fantasia chamada real. É o véu de Maia que encobre o sistema de amortização contábil, de apresentação do lucro aos acionistas e de cálculo do número de mortos dada impossibilidade de consumo. Sejam medicamentos, habitações decentes ou alimentos tudo agora é mercado, estamos todos consumidores.