Quem não pensou em pôr fim a uma dieta, quando a boca inundada da saliva esperava dissolver aqueles confeitos maravilhosos que as apresentadoras exibiam aos nossos olhares? Difícil é encontrar quem não os almejasse nababescamente, sonhando se fartar com aqueles bolos molhados, recheados de creme e morangos frescos, cobertos do mais puro chantilly e decorados com cereais e nozes das mais crocantes.
Quando projetado de uma cadeia significada para uma cadeia significante, qualquer signo tem por objetivo causar desejo. Um signo dirige-se através da cadeia significativa objetivando liberar impulsos capazes de anexá-lo às necessidades, de tal forma que tanto o signo quanto a necessidade se realizem juntos, pelos sentidos. Ou seja, o signo quer ter sentidos, ou melhor, quer ser em nossos sentidos e, como afirma Manuel de Barros, “uma palavra quer que eu a seja”. Os signos são o elemento central do processo de comunicação, mas mais que isso, representam as possibilidades que podemos declarar. Expressam potencialidades, como diz a fenomenologia, mais do que carências, como dizem os estruturalistas. É dessa forma, revelando a possibilidade de se fazer objeto, que cada frase, cada passo declarado da receita é lançado ao mundo. Os passos da receita buscam simplesmente se realizar, passando da linguagem ao ato.
Mas, voltemos ao nosso objeto de atenção. Os bolos frumentosos, cremosos e aromáticos, nos acenam como uma bandeira do MST aos olhos de um incauto fazendeiro de Brotas pasmo com os meandros da reforma agrária. Mas, o bolo, aquele que desejamos, e que poderemos construir, já está pronto. O que a apresentadora nos propõe é apenas a transformação de produtos inócuos em manjares, delícias, quindins... Ela usa o bolo como bandeira. Os ingredientes como entes. A receita como corrente significativa. E faz a promessa de que juntos, com auxílio da cognição, resultarão na mais divina iguaria!
Se você descrê da apresentadora e não vê possibilidade de elementos inócuos se transformarem em panacéias divinas, provavelmente não se recorda da lógica difusa ou da idéia de cotidianidade presente no existencialismo. Na lógica difusa, dois ou mais valores de verdade em uma conjunção podem não resultar em um agregado verdadeiro. Quem não sabe a receita, por certo descrê da mistura de farinha, creme de leite, manteiga, ovos e açúcar, na confecção de uma delícia. Mas, aos olhos treinados, aquilo que se define como ingredientes, já é o bolo que logo será. Uma cognição abre uma nova forma de ser no mundo, transforma o despercebido em coisa, e opera essa coisa que passou a ser. Assim como a receita pode fazer da farinha um bolo, a cognição pode ampliar as possibilidades do ser no cotidiano.
Voltemos à fórmula e sua técnica, que aqui é um delicioso bolo. O modo de fazer do bolo, a receita, é uma técnica. Os gregos não possuíam uma palavra para expressar a arte e uma outra para as habilidades manuais; para eles eram ambas a mesma coisa. Isso implica que para os gregos, arte e artesanato, Van Gogh e Ofélia, poderiam freqüentar as mesmas salas nos museus e nas cozinhas, pois o technica é, em sua execução e em suas possibilidades, definição de uma parcela do mundo em um objeto. Technica, pode assim, nos ajudar a transformar o modo de ser do mundo.
Quando projetado de uma cadeia significada para uma cadeia significante, qualquer signo tem por objetivo causar desejo. Um signo dirige-se através da cadeia significativa objetivando liberar impulsos capazes de anexá-lo às necessidades, de tal forma que tanto o signo quanto a necessidade se realizem juntos, pelos sentidos. Ou seja, o signo quer ter sentidos, ou melhor, quer ser em nossos sentidos e, como afirma Manuel de Barros, “uma palavra quer que eu a seja”. Os signos são o elemento central do processo de comunicação, mas mais que isso, representam as possibilidades que podemos declarar. Expressam potencialidades, como diz a fenomenologia, mais do que carências, como dizem os estruturalistas. É dessa forma, revelando a possibilidade de se fazer objeto, que cada frase, cada passo declarado da receita é lançado ao mundo. Os passos da receita buscam simplesmente se realizar, passando da linguagem ao ato.
Mas, voltemos ao nosso objeto de atenção. Os bolos frumentosos, cremosos e aromáticos, nos acenam como uma bandeira do MST aos olhos de um incauto fazendeiro de Brotas pasmo com os meandros da reforma agrária. Mas, o bolo, aquele que desejamos, e que poderemos construir, já está pronto. O que a apresentadora nos propõe é apenas a transformação de produtos inócuos em manjares, delícias, quindins... Ela usa o bolo como bandeira. Os ingredientes como entes. A receita como corrente significativa. E faz a promessa de que juntos, com auxílio da cognição, resultarão na mais divina iguaria!
Se você descrê da apresentadora e não vê possibilidade de elementos inócuos se transformarem em panacéias divinas, provavelmente não se recorda da lógica difusa ou da idéia de cotidianidade presente no existencialismo. Na lógica difusa, dois ou mais valores de verdade em uma conjunção podem não resultar em um agregado verdadeiro. Quem não sabe a receita, por certo descrê da mistura de farinha, creme de leite, manteiga, ovos e açúcar, na confecção de uma delícia. Mas, aos olhos treinados, aquilo que se define como ingredientes, já é o bolo que logo será. Uma cognição abre uma nova forma de ser no mundo, transforma o despercebido em coisa, e opera essa coisa que passou a ser. Assim como a receita pode fazer da farinha um bolo, a cognição pode ampliar as possibilidades do ser no cotidiano.
Voltemos à fórmula e sua técnica, que aqui é um delicioso bolo. O modo de fazer do bolo, a receita, é uma técnica. Os gregos não possuíam uma palavra para expressar a arte e uma outra para as habilidades manuais; para eles eram ambas a mesma coisa. Isso implica que para os gregos, arte e artesanato, Van Gogh e Ofélia, poderiam freqüentar as mesmas salas nos museus e nas cozinhas, pois o technica é, em sua execução e em suas possibilidades, definição de uma parcela do mundo em um objeto. Technica, pode assim, nos ajudar a transformar o modo de ser do mundo.
Basicamente, a aquisição da technica se dá por meio de um estranhamento no modo de lidar com os ingredientes e no resultado desse lidar. A primeira forma de estranhamento promove a cognição. Com ela, somos capazes de descobrir uma nova operação para um conjunto de ingredientes, fazendo-os significativos e operacionais. Em resumo, aprendemos e fazemos uso. Cristalizamos. A outra face da technica é mais complexa e envolve a poética. Com a poética, temos um estranhamento tal que, mesmo tomando conhecimento dos elementos envolvidos no processo, ainda assim, não somos capazes de operá-los. Não os temos num modo sistêmico-operacional que possa ser reproduzido. Assim, mesmo ao contarmos com elementos iguais e com uma mesma cadeia significativa, não chegamos a reproduzir os sentidos da obra primeira. A poética só nos é sensível e, embora as sensações possam ser apreendidas, há algo na poética que não é, mas que permanece ali.
O nosso bolo possui um mundo de possibilidades e a cada possibilidade uma conexão estrutural, de tal modo que (dirão os semióticos) o bolo deste texto é um signo que remete à possibilidade de um outro bolo na mente do leitor, e refere-se a terceiro bolo visto pelo espectador, que se referencia em um quarto bolo que a tevê exibe e que também é um símbolo em uma sucessão simbólica contínua. Então, afinal, o que é que temos? No lugar, nada. O bolo não é apenas o bolo e por isso ele nos sinaliza. Ele ocupa seu lugar, surge através de nossos sentidos em intuições duráveis e consegue, em meio às intuições que governam o nosso dia-a-dia, ser. O bolo é, e nós com ele, somos, não por uma determinação cartesiana, mas pelo simples fato de que quando organizado em nossa mente, ele é. No entanto, o bolo não é simplesmente dado, não surge ao acaso. Esse ser do bolo, resulta de uma técnica aplicada a ingredientes em uma corrente simbólica contínua, fruto de outras aplicações técnicas.
Porém, voltemos ao bolo. O bolo deve se materializar. Deve tornar-se real. O bolo que a apresentadora exibe é um signo e está ali em busca de desejos. Ele sinaliza ao espectador, o faz babar, promete realizações, impõe-se como potência, faz com que quem o vê queira sê-lo. Seu objetivo, enquanto símbolo, é deixar a cadeia discursiva, do logos, para ganhar a realidade. E a mensagem do bolo, do confeito, do chantilly com morango, do creme frumentoso e gelado, é que todos eles estão para serem devorados. O bolo quer ser e acena ao desejo como uma realização.
Mas, o bolo da tevê, aquele que deixa nossa boca cheia d’água, como ele é? Ele, o bolo, é na forma de um poder-ser dos ingredientes que a técnica do apresentador ou do confeiteiro abriram aos nossos olhos. Mas, por outro lado, de nada adiantaria a receita do bolo, se o bolo não ocupasse, nos olhos do espectador, um lugar primeiro, o lugar do vigor de ter sido. A potencialidade que a cognição pode abrir, com a receita de bolo, deverá ter sido, para então poder ser. É, baseado na simplificação do modo existencialista de ver o mundo, que a produção de um programa culinário tem sempre o bolo da receita já pronto. Preparado, o bolo projeta nos ingredientes a abertura para que a receita possa organizá-los em um bolo a serpreparado. Então, como funciona a cognição na receita de bolo?
A primeira regra é a de que o espectador deve ter de antemão o resultado da experiência do aprendizado proposto. No mundo sistêmico, não há possibilidades que não sejam abertas por um modo de ser que já não tenha sido. Ou seja, para vermos a possibilidade de fazer da farinha, açúcar, manteiga e ovos, um bolo, é preciso que tenhamos um vigor de ter sido, ou uma memória do bolo que desejamos e projetamos no futuro. (A complexidade cabe aqui à temporalidade, que no modo existencial funciona como relações entre passado e futuro, resultando no presente, e não linearmente em passado, presente e futuro. É preciso também ressaltar que a farinha não tem por metafísica o bolo, é a cognição que dá a ela, em mim, o sentido de tornar-se bolo).
Tendo os ingredientes organizados como potencialidade do bolo, a nova etapa consiste em aplicar a technica que irá operacionalizar a transformação. É preciso executar a receita. A cognição se dará quando o espectador, tomando a técnica transmitida na corrente simbólica que é o programa televisivo e os ingredientes da receita, torná-la real. A cognição de um programa de receitas de bolos na tevê se completa quando o espectador prepara o bolo, tal qual o que vê na tevê, mas não o da tevê. Se for capaz de entender isso, então também poderá melhorá-lo, criar novos sabores, formas, recheio, conteúdos, coberturas, caldas... Poderá fazer da cognição a technica e dessa, a poética de Uma Festa de Babete.
Mas, no fundo, da mesma forma que lidamos com uma receita de bolo, podemos lidar com a educação na tevê. O veículo, que ensina manjares, bolos e quitutes, pode se voltar e ensinar matemáticas, filosofias e ciências. É só mudar os ingredientes e os resultados surgirão em meio aos fluxos comunicacionais.
* Márcio Antônio Rezende é Jornalista, editor de informática, e especialista em Estética pela UNIBH (FAFI). É aluno ouvinte do programa de pós-graduação em Ciências da Comunicação da ECA/USP.